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Curitiba | Quinta-feira, 17 de Maio de 2012
Assistimos um pouco indiferentes ao início de uma grande discussão brasileira sobre a pertinência de tratarmos pessoas drogadas nas ruas contra a sua vontade, embora alguns poucos psicólogos, sociólogos e educadores se manifestem com argumentos favoráveis ou absolutamente contra.
A adesão popular ao assunto é restrita, como se tratassem de um problema distante, que não afeta nosso dia a dia, mesmo que a violência, em grande parte advinda das drogas, cresça no nosso entorno.
Talvez uma das maiores frustrações de pais e educadores seja a impossibilidade de auxiliar crianças e adolescentes a ficarem livres das drogas.
Mesmo com a maior boa vontade e interesse, esta é uma atividade difícil, de atuação dos especialistas, pois pressupõe tempo integral, afastamento das demais atribuições e um profundo conhecimento do outro, de suas carências e seus afetos desesperançados.
Assistimos hoje, do ensino fundamental ao superior, jovens – às vezes crianças – drogando-se e perdendo um futuro, como acabamos de ver acontecer com uma menina magrinha que tinha um vozeirão, e nenhuma vontade de libertar-se, apesar de ser, possivelmente, a maior cantora surgida nas últimas décadas, única comparável com honra às grandes cantoras negras do Soul e do Blues.
Há a visão romântica de que artistas de grande talento seriam como velas, muito finas, com pavios grossos demais, consumidos rapidamente por seu próprio fogo. Não é totalmente verdade, felizmente a maioria dos grandes artistas vive vidas longas e produtivas.
Alguns, talvez, vejam algo que os devore, o paraíso ou o inferno vislumbrado em contraste com a vida cotidiana, como esta menina trôpega e desorientada nos palcos brasileiros no início deste ano; assistimos sua agonia e pensamos em tantos outros, neste país ou fora dele, que também nos abandonaram cedo demais.
Pensamos em tanta gente e em tanta coisa, e sabíamos qual seria o final e não fizemos nada além de saber; não podíamos, e talvez ninguém pudesse. O sucesso traz autossuficiência, sentimento de poder tudo e, à parte os enormes interesses financeiros envolvidos, os que lhe eram próximos não conseguiram salvá-la.
Ela mesma afirmava em uma de suas canções mais conhecidas: “They tried to make me go to rehab. But I said ‘no, no, no’”, (“tentaram me mandar para a reabilitação, mas eu disse não, não , não”). Rehab é termo usado para designar clínicas de tratamento de pessoas dependentes de drogas ou com problemas comportamentais, abreviação de rehabilitation, reabilitação.
Esses tratamentos, aparentemente, só podem ter eficácia se contarem com a concordância do paciente, se ele tiver consciência de ter um problema e da sua gravidade e quiser tentar resolvê-lo. Embora não haja garantia de cura ou de não reincidência, constituem em grande esperança para muitas pessoas, talvez a única.
Valeria a pena uma discussão mais aprofundada sobre a pertinência (ou não) do início de um processo curativo sem a anuência do paciente, pela especificidade do assunto. De certa forma há proximidade com a questão educacional: desintoxicação da ignorância, do medo, geralmente com medicação controlada, acompanhada de reflexão orientada por profissionais sobre o problema, suas causas e consequências, e as opções possíveis.
Havia uma menina magrinha, e agora está morta, e nesse mesmo momento há milhares de meninos e meninas magrinhos, sem estudo, sem talento, sem sucesso e sem esperança, que morrem lentamente em praças públicas e cracolândias. A discussão, ao menos, é essencial.
Presidente da Comissão Central de Processo Seletivo da UniBrasil.
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