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Busca pela longevidade começa na infância. E deve perdurar por toda a vida

Alunos da Escola Municipal Maringá, no bairro Pinheirinho, em Curitiba, brincam no pátio da escola. Fotos: Joel Rocha /SMCS.

Quando alguém vê uma criança correndo pelo pátio de uma escola, brincando com os coleguinhas, não pensa, de imediato, quantos anos ela irá viver. Se passará pela infância, chegará à adolescência e fase adulta e se envelhecerá com saúde para ter uma vida longeva. Isso, na verdade, é uma incógnita, já que a longevidade dessa criança vai depender de inúmeros fatores.

Mas há quem se preocupe muito com este assunto. Uma pesquisa intitulada Kids and Old Age, realizada pela Economist Intelligence Unit (EIU), em parceria com a indústria farmacêutica Merck Consumer Health, revela que os jovens de hoje terão menos saúde quando atingirem 65 anos em comparação aos adultos que hoje têm essa idade.

O estudo envolveu cinco países ricos e de renda média: África do Sul, Alemanha, Arábia Saudita, Brasil e Índia. O objetivo do relatório foi determinar o grau em que boas práticas de saúde são ensinadas nas escolas e fomentadas em casa e na comunidade.

Uta Kemmerich-Keil, diretora executiva e presidente da divisão Consumer Health da Merck, explica que se este debate ajudar a fortalecer os sistemas para seus próprios filhos, na Alemanha, assim como para os jovens do Brasil à Índia, então é porque está sendo construído um futuro global de adultos saudáveis, com condições de aproveitarem ao máximo uma longa vida.

CORRENTES - Para isso, a pesquisa baseou-se em três correntes de pesquisa: levantamento de dados secundários, para determinar o quanto conhecemos sobre a educação de crianças em relação a uma visão de longo prazo de sua saúde; questionários on-line com 400 pais de crianças entre cinco e 16 anos e com 101 educadores e formadores de políticas públicas que atuam com estudantes; e entrevistas em profundidade com 18 especialistas de todo o mundo.


Evento da Merck, realizado em maio em Darmstadl, na Alemanhã, apresentou resultado

da pesquisa realizada sobre a saúde das crianças. Foto: Divulgação Merck.

O estudo foi apresentado no dia 18 de maio deste ano na sede da Merck, em Darmstadt, na Alemanha, no evento Global Consumer Health Debate, que teve como tema "100 anos com saúde: os jovens estão preparados?”. O fórum reuniu especialistas da ONU, Unicef, Unaids, Federação Mundial da Obesidade e a McKinsey, uma empresa de consultoria americana, e abordou questões como as ameaças mais urgentes à saúde de nossos filhos a longo prazo, o que pode ser feito dentro e fora da escola e como dividir a responsabilidade entre escola, família e comunidade.

O Brasil foi representado no evento pela presidente da Inmed Brasil, Joyce Capelli. A Inmed é uma organização da sociedade civil fundada em 1993 que tem por objetivo incentivar e fortalecer comunidades para o desenvolvimento de crianças saudáveis. Nasceu em São Paulo e já está presente com seus programas em 15 estados brasileiros.

A pesquisa, que ouviu especialistas, educadores e pais de todo o mundo, trouxe alguns dados preocupantes. Segundo o relatório, os problemas relacionados ao estilo de vida atual dos jovens já estão causando prejuízos em sua saúde e poderão contribuir para o surgimento de doenças crônicas na velhice.

ESCOLHAS - De maneira geral, 32% dos educadores ouvidos pela EIU afirmam que muitas crianças já sofrem de uma doença crônica e cerca de dois terços desses educadores dizem que as crianças fazem "escolhas nutricionais precárias". No Brasil, essa proporção aumenta para três quartos dos educadores, em contraste com pouco mais de 50% na Alemanha.

O estudo mostra também que as escolas se concentram nos principais problemas detectados, como falta de exercício físico, mas ignoram temas como nutrição e cuidados com a saúde mental dos estudantes. Enquanto o esporte está no topo da lista de prioridades do currículo escolar, apenas cerca de um terço (36%) dos pais e educadores ouvidos dizem que as escolas promovem práticas mais amplas de bem-estar, como evitar o estresse e dormir o suficiente para uma vida saudável.

Para Joyce Capelli o envelhecimento já carrega um simbolismo negativo do ponto de vista histórico, cultural, psicológico, social e econômico, que muitas vezes incide de forma ruim sobre quem avança na idade. “As decepções com falta de realizações, renda, solidão, falta de familiares, se traduzem muitas vezes em desânimo ou depressão. Pior ainda para aqueles que não cuidaram da saúde e chegam aos 60, 70, 80 anos muito debilitados”, explica.



Joyce Capelli (primeira à esquerda) representou o Brasil na Alemanha.

Foto: Divulgação Inmed Brasil.

A presidente da Inmed Brasil destaca que estudos mostram que os que fizeram escolhas mais saudáveis tendem a tornarem-se idosos com boa capacidade física e mental, pois praticam atividades físicas, vivem bem, têm autonomia, boa memória e lucidez. Ou seja, para prevenir-se de problemas futuros, a população deve iniciar o preparo com muita antecedência. “O correto, hoje sabemos, é que se iniciem esses hábitos saudáveis na infância e que sejam mantidos por toda a vida”.

IDEAL - Há quem diga, também, que não basta apenas cuidar da saúde para viver mais. É preciso foco, ideal. “Quem tem ideal não envelhece. O corpo pode até baquear, mas o espírito estará sempre alerta e será sempre jovem”, disse certa vez Alziro Abrahão Elias David Zarur, fundador e primeiro presidente da Legião da Boa Vontade, falecido aos 64 anos, em 1979, no Rio de Janeiro.

Alziro Zarur, como era conhecido, foi um dos grandes inspiradores de José Simões de Paiva Netto, que assumiu a LBV desde então e hoje ainda a preside. Mesmo nunca tendo cursado uma universidade, é escritor, radialista, compositor, poeta e líder religioso. Num artigo escrito no jornal Folha de S. Paulo, em 3 de maio de 1987, Paiva Netto louva a longevidade, citando Sidônio Muralha, poeta português que se radicou no Brasil, onde viveu até seu falecimento, em 1982.

No artigo da Folha, transcreve trecho do “Cântico à Velhice”, que Muralha teria escrito à sua esposa, Helen Anne Butler Muralha.

“Minha velha portuguesa/ com o teu rosto marcado,/ mas sem medo da vida/ (e ainda menos da morte),/ atira o teu cajado contra o tempo/ que passa e não tem presente,/ porque na segunda sílaba do presente/ já passou a ser passado. Atira teu cajado, companheira,/ contra esse tempo efémero/ que não consegue apagar-nos. Nós corremos no sangue/ das novas gerações/ e os velhos são as crianças/ do futuro, /as primaveras que vieram dos invernos,/ as flores que rebentam,/ que explodem da terra,/ como tu,/ minha querida portuguesa,/ que em cada ruga que tens/ existe um poema escrito/ tão grande e tão profundo/ que é um cântico à velhice. Sim, um cântico sem fronteiras,/ porque os velhos/ têm asas imensas/ que voam no sentido contrário,/ desafiando o espaço/ como quem roça o mar,/ mergulha para sempre/ mas deixa, perto do sol,/ uma mensagem salgada”.

ESTATÍSTICAS - Sim, como indicam as estatísticas no Brasil, “os velhos têm asas imensas”. De acordo com a projeção do IBGE, a população de idosos acima de 80 anos crescerá 8,8% ao ano, por duas décadas. O número destes idosos correspondia a 1.586.958 no ano de 2000. Em 2008 este número representava 2.410.106, em 2010, 2.935.585 e para 2050 a projeção será de 13.748.708.

Um trabalho de pesquisa, feito com 20 idosos, com 80 anos ou mais, publicado pelas professoras Mariluci Hautsch WilligI, Maria Helena LenardtI e Célia Pereira Caldas na Revista Brasileira de Enfermagem, em 2015, intitulado “A longevidade segundo histórias de vida de idosos longevos” concluiu que viver mais tem suas raízes no passado, fortemente influenciada pela cultura familiar e curso de vida.

Neste trabalho as pesquisadoras destacam que em 2020 haverá 1,93% de idosos longevos e, em 2050, esse percentual será de 6,39% . “E os idosos em geral, representarão um quinto da população, ou seja, 19%”, apontam no trabalho.

Os dados do Censo 2010 indicam, conforme a pesquisa das professoras, que no Brasil haverá 24.236 idosos com mais de 100 anos. O Paraná é o primeiro estado do Sul do Brasil em número de centenários. Ao todo serão 727. Entre os anos de 1999 a 2009, a faixa etária que apresentou maior média de crescimento anual em Curitiba, foi a de 80 anos ou mais, com 10,94%.

CONCEITOS - O envelhecimento e longevidade são dois conceitos correlacionados, mas que têm diferentes significados. Para o dicionário Houaiss, longevidade significa característica ou qualidade de longevo; duração da vida mais longa que o comum. E envelhecimento é o ato ou efeito de envelhecer, ato ou efeito de tornar-se velho, mais velho, ou de aparentar velhice ou antiguidade.



Arte da indústria farmacêutica Merck Consumer Health com estatísticas sobre idosos.

Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão, autor de Crítica da Razão Pura, afirmava, mutatis mutandis, que o tempo é a grande mentira dos homens. Portanto, acima de tempo-espaço e seus limites, real é a vida, que é eterna.

O doutor em demografia e professor titular do mestrado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – Ence/IBGE, José Eustáquio Diniz Alves, explica que a longevidade da população cresceu muito durante o século XX. “É cada vez maior o número de pessoas vivendo acima dos 100 anos de idade, embora pouquíssimas ultrapassem os 115 anos. Com novas tecnologias e avanços médicos a tendência é de aumento progressivo na longevidade humana”, diz.

Nesse sentido, os dois conceitos (velhice e longevidade) possuem acepções semelhantes, segundo Alves. “Mas envelhecimento, em termos demográficos, é um processo mais complexo. Em primeiro lugar é preciso definir a idade de corte para definir o idoso, idade esta que varia historicamente e possui início diferente conforme os objetivos de uma pesquisa ou de uma política pública”, lembra.

O estudioso diz que o Estatuto do Idoso no Brasil define o começo da “terceira idade” aos 60 anos: “Art. 1º - É instituído o Estatuto do Idoso, destinado a regular os direitos assegurados às pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos”. Já o Benefício de Prestação Continuada – BPC/LOAS – considera a população idosa, para efeito de recebimento do benefício, a partir de 65 anos.

A população idosa vem crescendo em ritmo superior ao dos outros grupos etários. O envelhecimento populacional brasileiro é inevitável. Quanto menor for a fecundidade, maior será a proporção de idosos no país, podendo chegar a um idoso para cada quatro brasileiros, em meados do atual século..

QUALIDADE DE VIDA - Para as professoras Mariluci Hautsch WilligI, Maria Helena LenardtI e Célia Pereira Caldas, o envelhecimento humano tem motivado inúmeras discussões. Em um trecho da pesquisa que publicaram destacam: “O alcance da longevidade, independente da presença de doenças, se tornou mais frequente na população. Concomitante ao crescimento do número de idosos mais idosos percebe-se uma parcela diminuta, desses, inseridos no mundo do trabalho informal e voluntário, outros participando nos contextos religiosos e comunitários e preocupados com sua qualidade de vida”.

As condições de como as pessoas chegam à longevidade, se somente estão vivendo mais, ou se estão atingindo idades mais avançadas com qualidade de vida, é que é o xis da questão.

O idoso mais idoso, como qualquer pessoa em desenvolvimento, destacam alguns especialistas, é desafiado a conservar e a restaurar sua vida de forma significativa e produtiva. A passagem do tempo implica déficits contínuos e cumulativos para os quais há o constante desafio de aprender novos conteúdos e de contrabalançar possíveis perdas, valorizando e reforçando aquilo que se mantém ou desenvolve.

MATURIDADE - E não é a idade que irá barrar idosos longevos de continuarem crescendo, intelectualmente. Prova disso é que a Universidade Positivo, em Curitiba, lançou no primeiro semestre deste ano a UP Maturidade. Criado em 2015, o projeto tem o intuito de potencializar saberes, promover a saúde física e mental, além de aprimorar conhecimentos em diversas áreas.

Segundo o coordenador da UP Maturidade, professor Raphael Di Lascio, o novo projeto pretende, ainda, integrar-se com a universidade por meio de atividades conjuntas. “Queremos incentivar uma troca entre alunos, professores e coordenadores. É a oportunidade de promover interação entre jovens e pessoas mais experientes. Queremos compartilhar conhecimento, mas também queremos aprender”, revela.

De acordo com Di Lascio, a qualidade de vida é o objetivo central do projeto, que será orientado por quatro principais aspectos: saúde física, socialização, espiritualidade e condição psicológica. “Todas as ações dos cursos serão sustentadas por esses pilares”, afirma.

As atividades ofertadas na unidade Praça Osório da UP, no centro de Curitiba, foram pensadas de acordo com a visão holística do desenvolvimento humano e suas relações com o ambiente físico e social. Por isso, os módulos são oferecidos em três núcleos: Conhecimento, que promoverá aulas de idiomas (inglês, francês, espanhol e italiano), informática, espiritualidade, leitura e expressão; Cultura e Ações Sociais, que, com o intuito de promover a socialização e a apropriação de temas variados, vai levar aos alunos atividades como filmes, palestras, passeios, visitas, projetos comunitários e viagens; e Informação e Vivência, que vai oferecer oficinas e cursos variados com curta ou média duração, rodas de conversa, teatro e coral – atividades propostas por profissionais, docentes e estudantes da Universidade Positivo.

“A busca pela longevidade com otimismo, saúde e bem-estar deve ser incentivada. Muitas pessoas, conforme vão envelhecendo, baixam sua produtividade, se isolam e não buscam mais a socialização. Isso pode causar graves problemas para a saúde biopsicossocial e espiritual. A continuidade de atividades faz com que se sintam úteis e atuantes”, explica Di Lascio.

Há instituições de ensino que também pregam que longevidade é viver mais tempo sendo jovem e não mais tempo vivendo na velhice. Segundo especialistas, é possível ser produtivo por muito mais tempo, se você cuidar diariamente tanto da saúde física quanto da saúde mental.

COGNIÇÃO - Um destes recursos é a estimulação cognitiva. “Nosso cérebro é um órgão plástico, ou seja, pode se modificar de acordo com os estímulos recebidos. Os exercícios para o cérebro fortalecem as ligações entre os neurônios, mantendo boa reserva cognitiva e bom desempenho”, explica Eva Bettine, gerontóloga da Universidade de São Paulo (USP) e consultora do Método Supera, uma rede de escolas especializada em oferecer um curso de ginástica cerebral.

Segundo Eva, uma reserva cognitiva maior será muito útil sob o estresse ou sob o envelhecimento, pois, sob o estresse, circuitos que demandam maior gasto de energia dificilmente serão ativados e você estará confinado a poucas alternativas de resposta. No envelhecimento, as células neuronais tendem a morrer”, explica.

A prática, embora indicada para todas as idades, faz mais sucesso entre os idosos, que se tornaram um público fiel. Além de manter e desenvolver habilidades como memória, concentração, raciocínio e coordenação motora, a ginástica cerebral previne o aparecimento dos sintomas de doenças como o Alzheimer.

Maria Santana de Souza tem 71 anos e procurou o curso de ginástica cerebral em Londrina, na região Norte do Paraná, porque já tinha histórico de Alzheimer na família. Com treino e persistência, ela conta que os resultados são surpreendentes. “Comecei a perceber muitas melhoras na minha memória em pequenas situações cotidianas, como lembrar onde guardei as coisas, horários de consultas médicas, etc. Além disso, desenvolvi também minha concentração e autoestima porque em sala de aula eu conheço pessoas novas e faço amigos”, relata.

APRENDIZADO - E a sala de aula tem se tornado o ambiente propício para os idosos que conseguiram perceber que podem ir muito além e realmente ganhar asas. A perspectiva de longevidade aumentou a juventude e postergou a velhice.

Um estudo realizado pelas norte-americanas Milena Nikolova e Carol Graham, da Brookinks Institution, publicado em 2014 na IZA Journal of European Labor Studies, comprovou que a felicidade chega aos 50 anos, desde que as pessoas estejam razoavelmente saudáveis, ajustadas à idade e em relacionamentos estáveis.

Outra pesquisa feita com duas mil pessoas e publicada em 2013 pela empresa de assistência médica britânica Benenden Health, aponta que a “meia-idade” começa aos 53. A pesquisa relaciona comportamentos desta fase, como preferir uma noite com amigos a uma balada, gastar mais dinheiro com cremes anti-idade e preferir fazer uma caminhada em dia de domingo em vez de passar mais tempo na cama.

Os avanços nas áreas da saúde, costumes e conforto, garantem às novas gerações de cinquentões uma fase de grande vitalidade. Viagens, estudos, esportes, intercâmbios no exterior, novos amores e novos casamentos estão entre as prioridades da maioria destas pessoas. Um bom apanhado de jovens senhores com este perfil faz parte do rol de alunos da Tea Time, uma escola de inglês para “maiores de idade”.

A escola de idiomas com duas sedes em Curitiba tem como proposta atender alunos maduros e oferecer aulas interessantes, num ambiente descontraído e agradável. A sócia-proprietária, Renata Gardiano, convive com o público e conta que os mais de 120 alunos, em sua grande maioria, têm a perspectiva de ampliar a rede de amizades, viajar de forma autônoma e exercitar o cérebro. “Já sem filhos pequenos e obrigações de trabalho, o curso de inglês acaba sendo um projeto de vida. Muitas vezes estão realizando um sonho antigo de falar outro idioma, fazendo ginástica mental ou se preparando para uma próxima viagem”, conta a empresária. “O que os alunos têm em comum são as boas histórias vividas, 100% de motivação para estudar inglês conosco, coragem e muita alegria de viver”, diz Renata.

O engenheiro civil aposentado e empresário Luiz Antonio Manoel, 66 anos, veio para a Tea Time trazido pela esposa Marcela, há cerca de dois anos. Ela acabou saindo do curso e ele ficou. Manoel faz inglês para facilitar as suas viagens internacionais, duas por ano, com a esposa. A última foi para a região de Provence, na França. Os dois filhos cresceram e agora a diversão do casal é viajar, apesar de ainda fazer trabalhos na área de engenharia civil num ritmo mais lento e colaborar na administração de um brechó da esposa. Na escola o casal formou um novo círculo de amigos que extrapola a sala de aula em encontros sociais. Manoel ainda faz caminhadas e tem hobbies como jardinagem e cozinha.



Educadora Wanda Camargo pesquisou a longevidade entre homens e mulheres.

Foto: Divulgação UniBrasil.

GÊNERO - A educadora Wanda Camargo, assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil, em Curitiba, fez um levantamento que mostra que a longevidade, muitas vezes, premia mais as mulheres que os homens. E, isso, por inúmeros fatores.

Segundo ela, conforme pesquisa do IBGE, concluída em 2015, a expectativa média de vida do brasileiro é de 75,5 anos, correspondendo a 71,6 anos para homens e 79,1 para mulheres; e não significa que necessariamente todos tenhamos o direito, se não divino pelo menos estatístico, de viver até essa idade.

O que se ressalta nesses dados, diz a educadora, é a aparente, e há muito conhecida, “injustiça” de que mulheres têm longevidade oito anos superior à dos homens. “Uma pesquisa realizada até a primeira metade do século 20 mostraria uma realidade diferente. Afora situações de guerra e outras catástrofes, mulheres morriam em média mais cedo do que homens devido principalmente a sequelas de gravidez e parto. Atualmente, em sociedades modernas, avanços da medicina e de procedimentos básicos de higiene e prevenção reduziram significativamente estas ocorrências”, conta.

Para Wanda, a pergunta do motivo pelo qual homens vivem menos é até desnecessária. “As causas são conhecidas. Uma delas é a maior exposição à violência, “rachas” de carro ou moto, brigas de gangues e atividades perigosas em geral. Outra é a incidência de doenças que poderiam ser melhor tratadas se fossem diagnosticadas no início e não são”, observa.

“O arquétipo masculino”, diz a educadora, “contém ainda uma herança pré-histórica: a necessidade de mascarar o medo para não ficar frágil perante inimigos e parceiros. O feminino foi desenvolvido sob o signo da proteção, formar uma cria dentro de si e resguardá-la dos perigos e da fome requer um tipo de coragem em que não há espaço para jactância”. Wanda diz ainda que, por isso, mulheres procuram ajuda e assistência com maior frequência do que homens quando não se sentem bem. “Muitos homens parecem acreditar que abdicarão de sua masculinidade se o fizerem, e só o fazem quando a doença já evoluiu a um ponto em que o tratamento é bem mais complicado”, diz.

SAÚDE - Desde 2012, o mês de agosto no estado do Paraná é denominado “Agosto Azul” em referência à campanha realizada neste mês entre entidades públicas e privadas para conscientização e adoção de medidas voltadas à saúde do homem, uma versão do bem-sucedido “Outubro Rosa”, dedicado à prevenção do câncer de mama. O objetivo é, principalmente, enfrentar essa resistência de muitos homens ao cuidado com a própria saúde, sabendo que a questão é também cultural. Foca-se na necessidade da realização de exames simples como os de diabetes, hipertensão, aids e hepatite, que podem ser feitos na rede pública de saúde e são essenciais para todos, mais ainda aqueles que têm mais de cinquenta anos de idade.

Para Wanda, embora venha se alterando positivamente nos últimos anos, graças às campanhas massivas de esclarecimento, não é simples tratar do quesito saúde com meninos, jovens ou mesmo adultos do sexo masculino, no ambiente escolar ou fora dele. “Ações que procuram incentivar a prevenção e promoção da saúde masculina esbarram em uma série de preconceitos, mitos e falsas fortalezas que impedem uma rápida mudança cultural. A vida é preciosa, é única, e não pode ser desperdiçada por preconceitos ou machismos”, adverte.

Embora a terceira idade traga consigo muitos desafios, envelhecer não tem sido visto pelos médicos como sinônimo de fragilidade. Ainda que o organismo passe por alterações importantes, é possível encarar essas mudanças tranquilamente. Porém, é preciso que o estilo de vida acompanhe essas alterações, respeitando as limitações impostas pela idade.

NUTRIÇÃO - Neste âmbito, o que se come é um dos pontos mais relevantes, pois, de acordo com a nutricionista Joanna Carollo, da Nova Nutrii, empresa de Santo André, em São Paulo, especializada em nutrição clínica com produtos voltados para o paciente domiciliar ou home care, pode determinar o quanto essas transformações vão impactar na qualidade de vida do indivíduo. “Ter bons hábitos alimentares é importante durante toda a vida, porém, nessa fase, a dieta pode ajudar a retardar ou minimizar os sinais do tempo. Por outro lado, um cardápio desequilibrado ou insuficiente pode agravar determinados sintomas e, até mesmo, aumentar a vulnerabilidade num período que, naturalmente, já inspira mais cuidados”.

De acordo com a especialista, esse descuido pode, inclusive, levar muitos a acreditar que certos sinais são consequências da idade, quando, na verdade, podem ser fruto de uma carência nutricional. “Embora os idosos enfrentem, naturalmente, situações como alterações do hábito intestinal, enfraquecimento da memória e a diminuição da massa muscular e óssea; a carência de determinados nutrientes pode acentuar esses sintomas a até mesmo comprometer a autonomia e disposição do indivíduo, isso sem contar o risco aumentado para doenças”.

Joanna afirma que mesmo pessoas que adotaram bons hábitos na juventude precisam reavaliar a dieta nessa etapa da vida, pois as mudanças próprias do envelhecimento podem tornar certos alimentos menos toleráveis e/ou dificultar a absorção de nutrientes, limitando a oferta vitamínica.

A primeira regra fundamental para garantir o vigor e fortalecer o organismo após os 60 é seguir um cardápio equilibrado. De acordo com a nutricionista, é preciso que o idoso atente para as alterações no hábito alimentar que muitas vezes passam despercebidas, mas que, aos poucos, podem comprometer a oferta nutricional. “Nessa etapa é comum que alimentos que antes faziam parte do cardápio passem a ser evitados devido ao desconforto sentido durante a mastigação e/ou digestão: é o caso de carnes, laticínios, alimentos mais fibrosos e resistentes, por exemplo, diz.

Embora seja comum que os idosos tenham transformações no ritmo gastrointestinal, na saúde bucal e, até mesmo, no metabolismo, é importante que o indivíduo busque substituir os alimentos que causam certo incômodo por outros mais aprazíveis, porém, correspondentes do ponto de vista nutricional. “É primordial que suas refeições contem sempre com alimentos variados, com porções adequadas de carboidratos, proteínas, gorduras boas e fibras”, ressalta Joanna.

FELICIDADE - Há anos, cientistas de várias partes do mundo vêm realizando pesquisas sobre a relação da felicidade com a longevidade. Já existe uma série de estudos que comprovam a influência do bem-estar emocional com anos a mais de vida. “Pessoas felizes vivem mais tempo”, diz o mastologista do Hospital e Maternidade São Cristóvão, de São Paulo, Dr. Rubens Prudencio.

Para ele o papel do médico cada vez mais é, além de cuidar do corpo, cuidar da mente. “Estar sob estresse, ansiedade ou tristeza significa afetar o sistema imunológico, tornando o indivíduo propenso a doenças”, explica. Por isso, é importante saber lidar com os descontentamentos e manter uma atitude positiva diante da vida. “Segundo o pai da psicanálise, Freud, somos movidos pela busca da felicidade”.

Práticas que promovem o bem-estar, como yoga, reike, shiatsu, dança, entre outras atividades são aconselhadas como complemento aos cuidados da saúde. Dedita Fernandes da Silva, de 74 anos, que convive com a fibromialgia (fortes dores musculares por todo o corpo) afirma que as crises se intensificam quando passa por momentos de tristeza. “Quando estou feliz, tenho menos dores, então aprendi a ser mais positiva. Sempre agradeço tudo o que tenho e procuro ter contato com a natureza. Passeio no parque, faço exercícios, alongamento e, ainda, estou estudando informática”, conta.

Conforme Dr. Rubens, procurar entretenimento é fundamental para fugir do estresse do dia a dia e cultivar uma vida mais saudável. “Há várias evidências de que essa rotina atribulada das grandes cidades provoca maiores índices de pressão alta e de doenças coronarianas, assim como renais, gástricas, imunológicas, e até mesmo uma menor resposta à vacinação”, complementa.

Ainda de acordo com ele, a competitividade da vida urbana é um dos principais responsáveis por vermos pessoas cada vez mais jovens sofrendo por estresse e com problemas de saúde. “Precisamos desacelerar um pouco e pensarmos mais em nós. De nada adianta comprometermos nossa saúde mental em busca de nos tornarmos vencedores, se prejudicarmos nosso bem-estar e encurtarmos nossa longevidade”.

EMPENHO - Mas há quem trabalhe muito e não abra mão de buscar a longevidade com saúde. O superintendente executivo Regional Sul (Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina) da Bradesco Seguros, Anderson Fabiano Mundim Martins, tem 44 anos e quer chegar aos 100. “Faço musculação três vezes por semana, ando de bicicleta nos finais de semana na ciclovia do Parque São Lourenço e adoro vôlei, mas jogo de vez em quando”, conta.

Anderson Mundim trabalha cerca de 12 horas por dia, mas esse número

sobe se participa de eventos corporativos, como este realizado em Londrina,

no primeiro semestre. Foto: Equipe Kandyany.

O cargo lhe impõe cerca de 12 horas de trabalho diárias, mas esse número é maior se há eventos corporativos. Para ele, longevidade se alcança fazendo o que se gosta, sendo feliz, praticando esportes e se alimentando bem. “Temos que nos empenhar”, afirma.

Mundim explica que na sua regional tem incentivado muito os corretores de seguros a ofertar e vender previdência. “Temos que ter consciência e maturidade em perceber que o Brasil e o mundo estão envelhecendo. As pessoas terão uma vida mais longeva e saudável e precisarão de renda para se manter fortes e ativos, com qualidade de vida”.

SPA COMO CASA - Myriam Max Gomes, de 75 anos, é professora. Nasceu no Rio, mas encontrou no Paraná o local perfeito para cuidar da saúde e envelhecer com a qualidade de vida que Mundim fala. Myriam mora há nove anos em um spa, o Estância do Lago, em Almirante Tamandaré, na região metropolitana de Curitiba. “É maravilhoso morar aqui, pois não fico sozinha e sou cercada de cuidados”, explica.

Com a satisfação e insistência da “Dona Myriam”, como é conhecida por todos os colaboradores e hóspedes, o empreendimento passou a oferecer uma nova modalidade de hospedagem para pessoas mais longevas que procuram bem-estar: o Estância Living. Além de trazer diversos benefícios sociais, emocionais e físicos, quem opta pela solução pode contar com um monitoramento integral, próximo e individual, além de uma convivência social e afetiva com pessoas e grupos variados, evitando o isolamento e a depressão.

O médico Fabiano Lago, um dos proprietários, lembra que a intenção é oferecer uma alternativa em relação às casas de repouso. Somente no Brasil, 83 mil idosos moram em asilos públicos ou privados, segundo levantamento realizado no ano de 2011 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).



Estância do Lago, na região metropolitana de Curitiba, oferece atendimento para que

idosos tenham toda a estrutura para o dia a dia. Foto: Divulgação.

No Brasil, existem cerca de 5 mil asilos, segundo a Associação das Casas de Repouso para Idosos do Estado de São Paulo (Acresp). “O nosso objetivo é uma nova proposta em viver e morar. O Estância Living é a moradia perfeita para um momento mais maduro da vida, quando cuidar do bem-estar e da saúde é fundamental”, argumenta, lembrando que o spa conta com uma equipe multidisciplinar, formada por clínico geral, cardiologista, endocrinologista, psiquiatra, fisioterapeuta, nutricionista, psicóloga, profissionais da saúde física e equipe de enfermagem 24 horas por dia, para o atendimento completo do morador.

GERIATRA - Um dos grandes dilemas dos adultos que já acumularam alguns anos de vida é saber quando é a hora de procurar um geriatra, médico que atende idosos, considerando as mudanças anatômicas, funcionais e psicológicas que fazem parte do processo natural de envelhecimento.

Para a Dra. Franciele Rigloski Menezes, geriatra do Plunes Centro Médico, de Curitiba, o acompanhamento de um geriatra é importante para ajudar na compreensão das mudanças que o corpo sofre por conta do envelhecimento, fator que pode garantir mais segurança e qualidade de vida.

Esse especialista, explica, é capacitado com conhecimentos de diferentes áreas, como clínica médica, cardiologia, psiquiatria, neurologia, pneumologia, nefrologia, entre outros, e, por isso, o tratamento é feito de forma holística.

Segundo a Dra. Franciele, o geriatra se preocupa com diversos aspectos da saúde do idoso e se dedica ao paciente como um todo, avaliando perspectivas clínicas, cognitivas, afetivas, ambientais, sociais, econômicas e funcionais. “Para nós, geriatras, um tratamento bem-sucedido vai muito além de apenas controlar as doenças. Nosso principal objetivo é preservar a autonomia e a independência do idoso”, destaca.

O geriatra, explica, pode ser comparado ao clínico geral, porém para a fase do envelhecimento”. Como a velhice se caracteriza como uma fase de fragilidade, o acompanhamento médico periódico é essencial para oferecer melhor qualidade de vida”.

Segundo a médica, três situações estimulam a procura por um geriatra. A primeira delas é preventiva, quando o paciente compreende as diferenças dessa fase e quer envelhecer de forma saudável. Em segundo lugar estão as pessoas que buscam acompanhamento para o processo natural de envelhecimento. Já a terceira, é caracterizada por pacientes com doenças preexistentes, que buscam evitar sequelas e até mesmo a reabilitação.

A recomendação é que, de forma geral, as consultas com o geriatra comecem até mesmo antes dos 60 anos, para orientações sobre como envelhecer de forma saudável, com menos limitações e dependência. Independente da idade, alguns sintomas também podem alertar para a necessidade de acompanhamento geriátrico, como perda ou alteração de memória, mudanças de comportamento, quedas frequentes, perda de peso ou dificuldade para realizar tarefas que antes eram realizadas com facilidade.

É importante compreender que alguns fatores podem influenciar na saúde ao longo da vida, como genética e hábitos diários. “Manter bons hábitos desde os 20 ou 30 anos faz toda a diferença. Uma vida saudável resulta em um idoso ativo física e mentalmente”, destaca a especialista.

A prática regular de exercícios físicos previne hipertensão, diabetes, colesterol alto e outras doenças comuns após os 40 anos. Além disso, ser fisicamente ativo evita perdas musculares e ósseas, melhora a coordenação motora e auxilia no controle do peso ideal. “Podemos dizer que chegar na terceira idade com disposição é mérito dos que se esforçam desde cedo para manter a saúde em dia. Mas, mesmo com uma saúde de ferro, quando a terceira idade chegar, o geriatra auxiliará com orientação sobre os melhores hábitos a serem adquiridos a partir daquele momento, para que a vida possa continuar a ser vivida com vigor e disposição”.

VITALIDADE - Um exemplo desse vigor e disposição é demonstrado todos os dias da semana pelo professor aposentado de Língua Portuguesa Venâncio Domingos Vicente. Com 85 anos, preside uma entidade que representa os professores e diretores de escolas públicas da rede estadual de ensino do Paraná, a Associação Paranaense de Administradores Escolares, Apade.

O presidente faz questão de estar presente à entidade todos os dias da semana. “Tenho minhas obrigações como presidente e também faço isso para não ficar velho. Se não fosse tanto à Apade talvez corresse esse risco”, brinca.

Ao ser perguntado se imaginaria chegar à idade que tem com tanta vitalidade esse responde que, na verdade, nunca pensou nisso. “A gente vive um dia atrás do outro e, quando vê, já está com essa idade”.

Mesmo sem praticar exercícios com frequência, nem deixar de comer o que gosta, goza de boa saúde. A resposta para isso está na ponta da língua: viver em paz!

Para o professor, as pessoas viveriam mais se não guardassem tantos rancores, mágoas e praticassem mais o perdão. “O ódio corrói por dentro e destrói mais a gente que a pessoa odiada”, afirma.



Professor Venâncio Domingos Vicente, de 85 anos.

“Resposta para a longevidade é viver em paz”, diz.

Como a saúde está em dia, reclama apenas de uma dor. Uma dor de dente insistente. “Já fui ao dentista dias atrás, mas pelo jeito vou ter que voltar, pois acho que ele mexeu no nervo do dente errado”, diz, em tom de brincadeira.

O professor se considera um homem moderno. “Pago minhas contas todas pelo celular e só saí do Facebook porque era muita papagaiada”, justifica, destacando que continua aberto ao novo. “Se surgirem novidades tecnológicas vou experimentar”.

Conta que vai se deitar por volta das 10 da noite e acorda às 7 horas. “Vivo aquele dia e assim vou indo. Pode ser que isso se repita por muitos anos. Então vou vivendo. Até aonde minha longevidade me levar. Porque não sou velho. Pelo menos de espírito não. Não mesmo”, ressalta.

obs: respeitar letras maiúsculas e minúsculas

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