Datas Comemorativas

Hoje é: Dia do Café.

Amanhã é: Dia do Síndico.

Artigos

Ascânio João Sedrez - imprensa@marista.org.br

Diretor Geral do Colégio Marista Arquidiocesano.

“Saindo do aquário”: educação vinculadora

O movimento dos fundadores da maioria dos Institutos Religiosos da Igreja Católica aconteceu para resolver situações concretas de pessoas do seu tempo. Até hoje, o Espírito suscita esse dom a serviço da humanidade. O amor cristão quer acolher a necessidade, quer transformar as realidades que geram violência, dor, exclusão...

Quando me refiro à fundação de Congregações dedicadas à educação, entendo que elas buscavam superar possíveis soluções menos emancipadoras e que transformassem os destinatários da missão em não-sujeitos de sua história e destino. Os hoje venerados iniciadores das obras consideravam que a qualificada Educação Evangelizadora seria um hábil recurso para a transformação da vida das pessoas e das sociedades.

Essa história, no caso do Grupo Marista, continua viva e intensa, quando nos aproximamos dos 200 anos de fundação do Instituto. No Brasil desde 1897, os Irmãos e demais educadores Maristas sempre entenderam que educamos “pela solidariedade e para a solidariedade” (cf. Missão Educativa Marista, 1984, n. 152-153). Só alcançamos êxito nesta dimensão essencial da Educação Marista quando transformamos a solidariedade em caminho e meta. Não educamos para que ‘um dia, se Deus assim o permitir’, nossos egressos possam encontrar oportunidades de vivenciar esse valor humano e cristão. Não é possível aprender a solidariedade como um valor em tese.

Temos hoje contextos dentro e fora da Igreja Católica para reforçar a urgência ética. A exemplo do Papa Francisco, que se tem colocado a serviço da humanidade, a Igreja Católica no Brasil, desde sempre, tem buscado ser presença serviçal do Reino de Deus em nossa realidade. Neste ano, a Campanha da Fraternidade, cujo lema é “Eu vim para servir” (Mc 10, 45), objetiva ‘aprofundar, à luz do Evangelho, o diálogo e a colaboração entre a Igreja e a sociedade, como serviço ao povo brasileiro, para a explicitação do Reino de Deus’.

A atuação da Igreja, povo de Deus a caminho, não é compreendida como movimento “ad intra”, numa autocontemplação narcísica. Ao contrário, a natureza da comunidade dos primeiros seguidores de Cristo, configurada ao longo da história como corpo institucional, não é nada mais que o serviço de promoção à pessoa humana em todas as suas necessidades. “Quando foi, Senhor, que lhe demos de comer, de beber, de vestir? Quando o visitamos nos hospitais e nas cadeias?...” (cf. Mt 25, 31ss) são as perguntas que servirão para avaliar a eficácia da presença dos que se colocam no caminho proposto por Jesus.

Como sociedade, vivemos a necessidade de um “resgate do humano”. O relatório da UNESCO para a Educação do Século XXI (organizado por Jacques Delors) apontava, no eixo “aprender a conviver”, quão crucial era o cultivo da espiritualidade, nesse caso não necessariamente uma espiritualidade relacionada com a Religião. “... Trata-se de Aprender a conviver, desenvolvendo o conhecimento a respeito dos outros, de sua história, tradições e espiritualidade. E a partir daí, criar um novo espírito que, graças precisamente a essa percepção de nossa crescente interdependência, graças a uma análise compartilhada dos riscos e desafios do futuro, conduza à realização de projetos comuns ou, então, a uma gestão inteligente e apaziguadora dos inevitáveis conflitos. Eis algo que, para alguns, pode parecer uma utopia que não deixa de ser necessária para sair do ciclo perigoso alimentado pelo cinismo ou pela resignação.”[1]

Veja que destaquei algumas expressões para “conversarmos” sobre a renovação da sensibilidade. Temos que fugir do cinismo e da resignação. Reconhecer a crescente interdependência existencial e prática das nossas vidas pessoais e coletivas.

Resgatar o que sentimos, tematizar o percebido, agir a partir dessas assumidas percepções é o que movimenta o nosso jeito de fazer educação pela e para a solidariedade. É por isso que os adolescentes pressionam para atuações mais corajosas, mais coerentes quando se trata de apresentar o projeto de Deus para todos, especialmente aos mais excluídos.

Um dos autores mais conhecidos no campo da atuação social da Igreja e das juventudes é Antonio Carlos Gomes da Costa. Ele, em texto produzido em 1999, assim se referia: “A participação autêntica se traduz para o jovem num ganho de autonomia, autoconfiança e autodeterminação numa fase da vida em que ele se procura e se experimenta, empenhado que está na construção da sua identidade pessoal e social e no seu projeto de vida. (Com isso) a sociedade ganha em democracia e em capacidade de enfrentar e resolver problemas que a desafiam”.

O denominado ‘protagonismo juvenil’ é luta intensa, é conquista cotidiana, é disputa permanente entre controle e autonomia. Nossos adolescentes e jovens batalham, no dia-a-dia de nossos colégios Maristas e na RMS (Rede Marista de Solidariedade), por espaços e por alternativas nas quais sejam reconhecidos como articuladores, sujeitos de processos que gerem mais vida para si e para os seus outros interlocutores. Grêmios que se articulam ou desarticulam, representação estudantil frágil ou consolidada, a própria Pastoral Juvenil Marista (PJM) cada vez mais reconhecida e integradora das nossas juventudes... são algumas situações com as quais vamos percebendo a força e a necessidade que a Educação Marista tem dos seus jovens. Não é possível articular ações sistêmicas, qualificadas e coerentes sem a participação ativa e consciente dos jovens. Não é uma ação apenas de educadores e pastoralistas. É ação com os jovens.

Para destacar um movimento consistente, indico a Missão Solidária Marista (MSM). Essa ação ocorre há anos, envolve os jovens dos Centros Sociais e dos Colégios do Grupo Marista. Tem incidência simultânea em várias realidades socialmente vulneráveis. Os jovens, quando possível, ficam hospedados em casas dos moradores desta cidade ou região. A proposta de atuação tem três ênfases: gesto concreto, oficinas socioeducativas e visitas domiciliares.

As visitas domiciliares permitem uma análise mais acurada da vida concreta da comunidade escolhida para o projeto. Os jovens missionários são chamados a ver, ouvir, perceber todos os aspectos daquelas famílias que convivem com os limites daquela comunidade. As oficinas socioeducativas canalizam a vertente mais educacional e de atuação com os adolescentes e crianças da comunidade em que a Missão Solidária acontece.

A ludicidade, a música, as dinâmicas permitem uma presença educativa e uma aprendizagem recíproca entre todos os participantes, missionários e comunidade de acolhimento. Por fim, o gesto concreto, escolhido pela comunidade que recebe os missionários Maristas, é o que mais empolga os jovens.

Para os que quiserem conhecer um pouco mais este trabalho pastoral indico o link https://www.youtube.com/watch?v=X288MTQDlLQ.

A Educação Marista almeja a construção da Civilização do Amor, sonho de Deus para toda a humanidade. Que os atuais e antigos estudantes Maristas continuem essa obra de Amor, iniciada por São Marcelino Champagnat.

Veja outros artigos deste autorVeja artigos de outros autores

obs: respeitar letras maiúsculas e minúsculas

obs: respeitar letras maiúsculas e minúsculas