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Zélia Maria Bonamigo - zeliabonamigo@uol.com.br

Jornalista, antropóloga, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.

Comunidade indígena chega por livro ao Colégio Estadual José Pioli, no Paraná

Depois de realizar uma pesquisa sobre a vida dos índios e índias Mbya Guaranis, na ilha da Cotinga em Paranaguá (PR), o que mais almejava era fazer a pesquisa voltar para a sociedade não índia, como uma dívida que passei a ter com aqueles que se dispuseram a colaborar com minha pesquisa e por causa da confiança depositada em mim pela nossa sociedade mediante o mestrado em antropologia social da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Lembro-me bem daquele dia quente, no horário do almoço, em Paranaguá, quando pude ver pela primeira vez alguns índios perto do Mercado do Café. Na infância eu tinha lido muitas histórias envolvendo grupos indígenas e minha fantasia potencializava aquelas imagens de pessoas nuas com grandes arcos e flechas vivendo na floresta.

Embora naquele dia eu não estivesse interessada em distinguir aquele grupo indígena de outros que haviam feito parte de minhas leituras, de cara os Mbya Guaranis me comunicaram sua essência ao me convidarem com meu esposo, Jorge, a visitá-los na ilha da Cotinga. Depois fui entender porque a visitação é tão importante no interior da aldeia...

Promessa cumprida, longo tempo de pesquisa no decorrer do mestrado e um livro nasceu dessa convivência, conforme aliança que fiz com o pajé Cristino, ao me dizer: “Tudo o que você está escrevendo deve virar um livro”. Eles haviam tido, anteriormente, a experiência da escrita de outro livro, “Quem mata índio”, do médico dr. Moysés Paciornik, e desejavam que a minha pesquisa também se tornasse livro para falar do seu modo de ser. Assim teriam uma nova forma de responder às perguntas feitas por turistas e pesquisadores, que são mais ou menos assim: Como é a vida de vocês? Como vocês se vestem quando estão sozinhos na aldeia? Qual sua crença? Vocês têm outras comunidades? Comem os mesmos alimentos que nós? O que acham da sociedade não índia?, entre outros.

Pois bem, o livro foi lançado, em 2009, pela Secretaria de Estado da Cultura (SEEC) e distribuído nas bibliotecas das escolas estaduais e biblioteca pública do Paraná, entre outras, e volta e meia fico sabendo que alunos de cursos universitários estudam alguns de seus capítulos, ou alunos do ensino médio ficam conhecendo sua vida, como aconteceu recentemente.

Um dia desse, Jorge me contou que um professor de história, colega dele, chamado Alessandro Cavassin Alves, mencionou um trabalho feito com alunos do 2.º ano do ensino médio no Colégio Estadual José Pioli, em Itaperuçu, região metropolitana de Curitiba, e que achou interessante a etnografia. Então quis conversar com ele para saber da repercussão que aquele estudo trouxe à sua leitura e naquela dos jovens de 15/16 anos. Uma coisa é você viver por algum tempo em uma comunidade indígena em uma ilha, outra coisa é ouvir o retorno de alunos jovens e com outro estilo de vida, ao lerem aquilo que a comunidade indígena quis transmitir sobre si própria.

O professor Alessandro Cavassin Alves me disse que lhe chamou especial atenção “a forma como a etnografia foi realizada e os aspectos culturais da lógica daquelas pessoas”. E, ainda:

Este livro demonstra a vida deles nos dias atuais. Sua localização, nossos vizinhos. Neste sentido é uma referência sobre o tema. E com os alunos, a partir dessa referência, ao comentar os diferentes tipos de cultura e, sobre a história do Paraná, citei partes da obra "A economia dos Mbya Guaranis: troca entre homens e entre deuses e homens da ilha da Cotinga, em Paranaguá (PR)"(2009), de modo especial a questão das trocas, da morte, entre outros.

Temas como a lógica Mbya Guarani, a morte e, principalmente, das trocas também me impressionaram muito no decorrer da pesquisa. E passei a compreender outra forma de pensar e organizar o mundo, uma vez que no Universo todas as formas de vida dialogam e os Mbya Guaranis, a partir de sua religião, organizam a vida na aldeia de modo que as diferentes espécies de vida dialoguem entre si e com os deuses, por isso o título do livro, tão sabiamente sugerido pela minha orientadora, professora Edilene Coffaci de Lima, e por isso a palavra economia, que trouxe para o livro outra forma de entender poupanças, investimentos e trocas, alternativas ao modo de ver capitalista.

E como os alunos do 2.º ano do ensino médio responderam à iniciativa do professor Alves? Ele me disse que achou positivo “levar o exemplo dessa pesquisa para a sala de aula porque é uma etnografia, uma cultura distante e próxima ao mesmo tempo”.

Concordo, é uma forma de viver suas tradições que nos parecem familiares, mas ao mesmo tempo percebemos que por trás daquilo que parecem semelhanças de sua vida com a nossa existem segredos culturais jamais revelados para outros grupos não indígenas, mesmo que nos convençam de que devemos nos sentir importantes por ouvi-los contar-nos alguns poucos “segredos”. E nos sentimos, pela Diversidade.

Mas no ensino médio os professores não podem se demorar muito com um mesmo tema, no caso do professor Cavassin foram apenas algumas horas em duas semanas. No entanto, me disse que “despertou nos alunos a curiosidade, a busca para entender melhor o outro”, algo que pode se tornar, quem sabe, um projeto novo mais adiante.

Isso é que o professor Alessandro me disse esperar: “Acredito muito que temos que fazer algo pelas comunidades indígenas, nem que seja apenas conhecê-las melhor bibliograficamente”, que eu considero um grande projeto, pois quem tem hoje informação sobre uma comunidade indígena amanhã poderá transformar essa informação em conhecimento mediante pesquisas, que terei imensa alegria de ler.

Boa leitura a todos e parabéns ao trabalho do professor Alessandro.

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Autor(a):

Jorge Antonio de Queiroz e Silva